A cultura do “seja você mesmo”
está criando pessoas insuportáveis

Vivemos um tempo curioso: nunca se falou tanto sobre autoconhecimento e autenticidade — e nunca fomos tão frágeis diante do outro.

A frase “seja você mesmo”, antes um convite ao retorno interior, transformou-se 

em escudo para comportamentos impulsivos, imaturos e emocionalmente desresponsabilizados.

 

por Lan Gonzales

E aqui eu digo com toda a profundidade filosófica que sustenta meu trabalho: não é autoconhecimento quando você se permite tudo. É autoconhecimento quando você se suporta. E quando você suporta o outro.


O problema do “seja você mesmo” é que ele virou um salvo-conduto ético: cada um quer dizer tudo, fazer tudo, reagir a tudo — e ainda assim ser respeitado, compreendido e aplaudido.

É uma geração que exige acolhimento, mas não oferece tolerância. Quer opinião, mas não suporta discordância. Quer liberdade, mas se recusa a arcar com consequências. Autenticidade sem responsabilidade é apenas ego performático. E ego performático é insuportável.

Desde os monges do início do cristianismo — que buscavam o deserto para enfrentar os próprios demônios — até a filosofia oriental, que entende que o silêncio revela mais do que o discurso, sempre soubemos que olhar para dentro é incômodo, árduo, perturbador.

Não tem nada de glamouroso nisso.

Santo Agostinho, ao descobrir que Deus estava dentro dele — “mais íntimo de mim que eu mesmo” — fala justamente desse encontro com o que evitamos ver: sombras, culpas, desvios, fantasmas. E talvez seja por isso que o mundo hoje é tão barulhento: porque o silêncio entrega demais.

E a nossa autenticidade contemporânea não quer ser entregue. Quer ser protegida, validada, celebrada… sem questionamento. Mas há algo que insisto profundamente em trazer: o processo não é só de dentro para fora.

É também de fora para dentro. Somos atravessados pelo que mostramos, pelo que vestimos, pelo modo como ocupamos espaço. Negar isso é negar metade da nossa humanidade.

E é por isso que eu afirmo — com precisão técnica e filosófica — que a consultoria de imagem é um exercício de inteligência. E não falo apenas da inteligência lógica. Falo da inteligência que Blaise Pascal descreveu com precisão:

O coração tem razões que a própria razão desconhece.

Pascal falava de duas formas de espírito:

  • esprit de géométrie — o raciocínio estruturado, lógico, previsível;
  • esprit de finesse — a inteligência sensível, do detalhe, do nuance, da leitura profunda do sinal mínimo.

A sociedade do “seja você mesmo” vive intoxicada apenas do primeiro tipo: opina rápido, reage rápido, se ofende rápido. Mas não sabe observar. Não sabe interpretar. Não sabe sustentar nuance. Não sabe lidar com o que não controla. É por isso que se tornou tão difícil conviver: pessoas que não toleram posições diferentes querem que sua própria posição seja respeitada.

Pessoas que não suportam ser contrariadas exigem ser compreendidas. Pessoas que confundem sinceridade com agressividade querem ser vistas como autênticas. Pessoas que não têm preparo emocional para as consequências das próprias palavras querem liberdade total de expressão. Isso não é autenticidade. É imaturidade travestida de verdade. A autenticidade real é silenciosa.

É refinada.

É ética.

É consciente.

Ela exige o trabalho interno de Agostinho — e o trabalho externo de Pascal. Ela exige o silêncio dos monges — e a lucidez de reconhecer que mostramos quem somos antes mesmo de falar. No meu trabalho, quando alguém se olha por fora, começa a acessar partes internas que jamais tinha alcançado. E quando se olha por dentro, aprende a expressar por fora com responsabilidade. É um movimento duplo, humano e sofisticado: de dentro para fora, e de fora para dentro.

No fim, o “seja você mesmo” só faz sentido quando você já sabe quem é — e quando você consegue existir no mundo sem esmagar ninguém ao redor. Autenticidade não é permissão irrestrita. É maturidade. É presença. É finesse.

E, acima de tudo, é a capacidade de olhar para si e para o outro com verdade — e com gentileza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

A cultura do “seja você mesmo” está criando pessoas insuportáveis