Imagem política e a perda da complexidade

O momento político que vivemos, no Brasil e no mundo, não se limita mais ao campo do discurso e das ideias. Ele se manifesta de forma cada vez mais performática, operando por meio de imagens, símbolos, códigos visuais e encenações cuidadosamente construídas.

De um lado, há uma estratégia consciente no jogo político contemporâneo. A polarização não é apenas consequência, mas também método. A imagem passa a ser utilizada como ferramenta para gerar pertencimento, confronto e adesão simbólica.

 

por Lan Gonzales

A política hoje acontece nos corpos, nos gestos, nas aparições públicas e nos enquadramentos. Tudo comunica.

Do outro lado, estamos nós — pessoas comuns — tentando sustentar alguma liberdade de escolha sem precisar assumir rótulos automáticos ou leituras rasas e imediatas.

Recentemente, ouvi o relato de uma pessoa que foi trabalhar usando uma roupa vermelha, uma cor de que gosta, uma escolha pessoal. Ainda assim, a leitura foi imediata: ela foi associada a um posicionamento político que não corresponde à sua realidade.

Não houve discurso.

Não houve declaração.

Houve símbolo.

Esse episódio revela o efeito colateral de um jogo político tão performático que transborda para o cotidiano. Muitas vezes, somos forçados a nos posicionar antes mesmo de falar. A complexidade individual perde espaço para interpretações automáticas.

Nesse cenário, o corpo deixa de ser apenas presença e passa a funcionar como atalho de interpretação.

Talvez a pergunta central hoje não seja apenas em quem acreditar, mas o que estamos normalizando como imagem de poder quando a liberdade de escolha diminui, a necessidade de explicações se impõe e a complexidade individual é comprimida pela lógica da polarização política.

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